quarta-feira, agosto 08, 2007

Capítulo 8 - Um exemplo de fé

Mãos firmes nas rédeas. Os chicotes golpeiam os cavalos já ofegantes com a subida do morro que leva a Gaspar Alto. É noite e os dois cavaleiros mal conseguem ver o estreito caminho. Mesmo assim, avançam determinados.

Georg Friedrich Adolfo Hort sempre teve fama de valentão. Desde que ouvira falar que um grupo de famílias havia formado uma nova “seita” em Braunchweig (Gaspar Alto), tomara a decisão de acabar com aquilo. Afinal, “religião de alemão é só a Luterana” – dizia.

Convidou um amigo e cavalgaram até o local onde ficava a pequena igreja. Apearam dos cavalos e, de chicote em punho, estavam dispostos a invadir o templo e causar a maior confusão. De repente, Adolfo se detém.

– Espere um pouco... Ouça o que o pregador está dizendo!

No momento em que os dois espiam pela janela, alguém lê as palavras do livro de 1 João, capítulo um, verso sete: “Mas se andarmos na luz como Ele na luz está, temos comunhão uns com os outros e o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo pecado.”

Adolfo olha para o colega e diz:

– Isso me impressionou. Vamos embora.

Adolfo Hort era apenas um garotinho quando o pacote de revistas adventistas procedente dos Estados Unidos foi aberto diante de seus olhos curiosos. Seu pai, Davi Hort, não se interessou pelo conteúdo da revista que ganhara de Carlos Dreefke e deu-a à esposa Anna Dorothéa. Aparentemente, a Mensagem Adventista não havia chamado a atenção da família Hort. Dorothéa ficara impressionada com a grande enchente do início da década de 1880, interpretando-a como um dos sinais do fim do mundo. Mas isso fora tudo.

Adolfo agora tinha 27 anos e estava casado com Emma Kräft Hort. Ema era filha de August e Caroline Wiedenhöft Kräft, imigrantes alemães muito pobres. Para sobreviver, trabalhou como doméstica para os Hort. Ali conheceu Adolfo. Apaixonaram-se e casaram em 25 de junho de 1891.

Depois do incidente em Gaspar Alto, Adolfo começou a pensar mais seriamente nas coisas que ouvira falar sobre os adventistas. Dirigiu-se até o pastor luterano de Brusque e pediu explicações, recebendo a promessa de que no domingo, durante o culto, seria explicada a questão do sábado.

Adolfo e Emma sentaram-se na primeira fileira de bancos da igreja luterana, especialmente atentos naquela manhã de domingo. Após alguns cânticos, o pastor dirigiu-se ao púlpito e começou a falar:

– Prezados irmãos, têm surgido em nosso meio algumas dúvidas doutrinárias, devido a existência dos tais adventistas do sétimo dia em nossa região. Primeiramente, é preciso deixar claro que a Bíblia realmente apresenta o sábado como dia santificado por Deus. Só que nós já estamos tão acostumados com o domingo, que continuaremos a observá-lo.

Adolfo inquietou-se. Mal conseguiu prestar atenção ao resto do sermão. Ao voltarem para casa, comentou com a esposa:

– Emma, você escutou bem o que o pastor disse?

– Sim, escutei.

– Pois então. Se o domingo é apenas uma tradição, creio que devemos guardar o sábado como os adventistas.

Adolfo e Emma, dali em diante, tornaram-se observadores do sábado, embora ainda não se reunissem com os adventistas. Estudavam a Bíblia até altas horas da noite, à luz de lampiões de querosene. Foi então que começaram as perseguições por parte da família.

Os irmãos de Adolfo atiravam pedras nas vidraças da casa enquanto ele estudava a Bíblia. Uma cunhada chegou a dizer que preferia criar criminosos a viver com adventistas. Anos mais tarde, ironicamente, os filhos dessa mesma cunhada assassinaram uma pessoa.

Como nessa época Davi Hort já havia falecido, Anna Dorothea foi morar com o filho Adolfo. Não suportando mais a pressão dos familiares, Adolfo, esposa e mãe mudaram-se para Blumenau. Naquela cidade, Anna se converteu e os três foram batizados.

Adolfo Hort tinha 11 anos quando presenciou a abertura do pacote contendo dez revistas Arauto da Verdade



Viveram cerca de 20 anos em Blumenau. Por volta de 1915, mudaram-se para Jaraguá do Sul. Com os filhos Carlos, Germano, Bertoldo, Elizabeth, Leonida, Arthur, Carolina, Erica e Augusta, mais algumas outras pessoas, o casal Hort fundou a primeira igreja adventista em Jaraguá do Sul, fechada alguns anos depois devido à mudança da família para Corupá. No dia 28 de novembro de 1918, Anna Dorothea morreu.

Em Corupá (distante uns 35 quilômetros de Jaraguá), Adolfo trabalhava como carpinteiro e ajudou a construir, na década de 1930, a primeira igreja adventista da cidade. Sobre essa época, sua neta Marta N. Hort Rocha, filha de Arthur Hort, conta muitas histórias.

Certa ocasião, Adolfo estava trabalhando sobre o telhado de um paiol. Pediu água à sua neta Marta que, instantes depois, já estava com uma caneca cheia nas mãos. Adolfo pediu que a menina lhe alcançasse a caneca. Vendo o esforço da filha, erguendo os bracinhos para cima com a água, Arthur diz:

– Ah, mas assim, nem que nós te ergamos, tu não consegues alcançar!

– Então me ajuda, papai.

– Não, netinha. Quero que tu tragas a água para mim. Sobe nessa escada – diz Adolfo, apontando para uma escada de madeira que, do ponto de vista da pequena Marta, era enorme.

Como sempre teve medo de altura, Marta sobe a escada com todo cuidado, sob o olhar do pai Arthur.

– Estás com medo, netinha? – pergunta Adolfo sorrindo. – A menina diz que sim, balançando a cabeça, sem olhar para baixo.

– É, mas é bom tu aprenderes a não ter medo de almejar as alturas, pois para irmos para o Céu, temos que subir de degrau em degrau na escada da santificação.

Tirar lições espirituais de coisas do cotidiano era prática comum para Adolfo. Em outras ocasiões, escondia uma das bonecas de sua neta Marta, ajudando-a, depois, a procurá-la. Minutos depois, graças às pequenas pistas do avô, os dois encontravam o brinquedo e Adolfo fazia uma “festa”. Em seguida, colocando a criança no colo, dizia:

– Assim é com a Palavra de Deus. Temos que procurar, procurar e procurar sempre mais. E sempre encontraremos coisas novas para nos ajudar no preparo para a volta de Jesus.

A fé de Adolfo era surpreendente. Certa vez, enquanto visitava os parentes em Brusque, conversou com uma de suas sobrinhas que estava grávida. Ema era filha de Carlos Hort e disse a Adolfo que uma benzedeira “profetizara” que ela não sobreviveria ao parto. Adolfo convidou-a a fazer uma oração e disse que “em nome de Jesus, Ema não morreria”. Ema passou bem e nasceram-lhe duas gêmeas perfeitamente saudáveis: Elvira e Milita. Posteriormente, as duas tornaram-se adventistas. Elvira casou-se com Arthur Sartotti e tiveram um filho, o pastor Orlando Sartotti.

Sentindo o peso da idade e tendo todos os filhos já casados, Adolfo voltou com a esposa para Jaraguá do Sul. Ali morou com o filho Bertoldo até falecer no dia 9 de fevereiro de 1944. Sua esposa Emma faleceu dois anos e meio depois.

Enquanto morou em Jaraguá, Adolfo Hort ajudou a cuidar da marcenaria de seu filho. Nas horas vagas, tratava das doenças de alguns vizinhos, pois adquirira um bom conhecimento de tratamentos naturais por meio de livros em alemão. Chegou até a realizar uma cirurgia de raspagem de osso infeccionado no pé de sua nora. Ela ficou, depois disso, completamente curada.

Nos últimos momentos, antes de falecer, Adolfo pediu que chamassem seus filhos Bertoldo e Carlos para que tocassem um hino ao violino. Os dois e alguns outros parentes circundaram a cama do velho pai. Adolfo sabia que estava morrendo. Deu a mão para cada filho e se despediu deles. Ao chegar a vez de Emma, disse ternamente:

– Não chores, querida. Eu vou dormir* só um pouquinho, porque logo Jesus vai voltar e estaremos juntos novamente.

Dizendo isso, Adolfo ergueu uma das mãos e pediu que sua esposa juntasse a mão esquerda, paralisada, à direita, para que ele pudesse orar. Terminada a oração, Adolfo fechou os olhos. E morreu serenamente.

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. ... Dar-lhe-ei abundância de dias, e lhe mostrarei a Minha salvação.” (Versos do Salmo 91, o preferido de Adolfo Hort.)


Adolfo Hort ajudou a construir o templo adventista de Corupá, SC

(*) Baseados em textos como João 11:11-14, 43, 44; Marcos 5:39; Eclesiastes 9:5-6; Salmo 146:4; Jó 14:1, 2, 7, 10-12; João 6:40; 1 Coríntios 15:20-23; 1 Tessalonicenses 4:12-17 e outros, os adventistas crêem que os “mortos em Cristo” aguardam como que dormindo, inconscientes, a segunda vinda de Jesus à Terra, quando serão, então, ressuscitados para a vida eterna.