quarta-feira, agosto 08, 2007

Capítulo 7 - O dia do Senhor

“Vocês são a luz do mundo todo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lamparina para pôr debaixo de um cesto. Ao contrário, ela é colocada no lugar próprio para que ilumine todos os que estão na casa.” Mateus 5:14 e 15 BLH

A mensagem adventista, embora tenha se estabelecido primeiramente em Gaspar Alto, não conseguiu ficar escondida naquele pequeno vale em meio às montanhas. Os raios de luz do evangelho foram pouco a pouco se espalhando. As pessoas comentavam; os folhetos e livros continuavam a fazer sua parte.

Em Lageado Baixo, a menos de 20 quilômetros de Gaspar Alto, Roberto Fuckner, nascido em Holstein, na Alemanha, ouviu falar que seu amigo Guilherme Belz e outras famílias estavam guardando o sábado.

– Sabe o quê, Maria? Eu tenho que ir a Gaspar Alto. Ouvi falar que o Guilherme e outros estão guardando o sábado. Eles estão com a cabeça virada e preciso ir lá endireitar a cabeça deles.

Na sexta-feira seguinte, à tarde, Roberto pegou o chapéu e a bengala, despediu-se da esposa Maria, e partiu a pé para Gaspar Alto. Ambos eram piedosos luteranos e não podiam permitir que o amigo Guilherme se deixasse levar por “essas novas idéias estranhas”.

Depois de uma caminhada de cerca de três horas por um estreito atalho, Roberto chegou até a casa do amigo. Guilherme o recebeu sorridente, vestindo um bonito terno escuro.

– Boa tarde, amigo Roberto! O que o traz até minha casa?

– Boa tarde, Guilherme. Por acaso você vai a algum casamento, vestido assim de terno e gravata? – pergunta Roberto, sem esconder a estranheza.

– Não, amigo – diz Belz calmamente. – As pessoas costumam se vestir bem, quando vão receber um prefeito ou governador. Eu me arrumei assim pois vou receber Jesus. Hoje é sábado, o dia do Senhor.

Franzindo o cenho, Roberto responde:

– É justamente por isso que eu vim.

Os amigos entraram e conversaram quase a noite toda. Passaram-se o sábado e a manhã de domingo. À tarde, Roberto se despediu de Guilherme e empreendeu a caminhada de volta a Lageado Baixo.

Quando já estava próximo de casa, seus amigos, num bar, o convidaram para jogar baralho e beber cachaça. “Não tenho tempo agora”, foi a resposta do alemão apressado. Chegando em casa, tirou o chapéu, guardou a bengala e sentou-se à mesa. Sua esposa aguardava curiosa uma palavra do marido. Roberto, sério, começou a comer em silêncio. Maria não se conteve:

– Como é, Roberto? Nem me conta nada! Endireitaste a cabeça do Guilherme?

Roberto levanta o rosto, encara a esposa e responde com convicção:

– Não, Maria. O que eu descobri é que, se nós queremos praticar a verdade, temos que guardar o sábado também!

– O quê!? – Maria arregala os olhos. – Em vez de tu endireitares a cabeça deles, eles viraram a tua?

– Não, Maria. Vai buscar a tua Bíblia – Roberto tira do bolso da camisa um papel rabiscado. – Eu tenho marcadas aqui as passagens.

Maria vai até o quarto e traz a velha Bíblia que já havia sido de sua mãe, na Alemanha.

– Agora encontre o texto de Eclesiastes 12, versículo 13.

– Aqui está – diz Maria, segundos depois.

– Então leia.

“– De tudo o que se tem ouvido, o fim é: teme a Deus e guarda os Seus mandamentos, porque este é o dever de todo homem.”

– Veja, Maria, aí diz “todo homem”. Portanto, os mandamentos não são só para o povo judeu, como nos haviam ensinado. Além do mais, de acordo com o livro de Gênesis, o sábado foi dado a Adão e Eva na criação do mundo, quando não havia sequer um judeu ou outro povo qualquer sobre a Terra. Agora leia Êxodo, capítulo 31, verso 18.

“– E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus.”

– Veja só a importância da lei! O próprio Deus a escreveu com Seu dedo em tábuas de pedra...

– Mas o que isso tem a ver com o sábado, Roberto? – interrompe Maria, já quase impaciente.

– Leia o quarto mandamento em Êxodo 20:8 a 11 – diz Roberto, apontando a mão para a Bíblia aberta diante de Maria.

– Está bem. Aqui está: “Lembra-te do dia de sábado para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus...” – Maria levanta os olhos sem terminar de ler o texto e exclama:

– Roberto, como pode?! Toda a vida nós lemos a Bíblia e nunca notamos isto!

– Não estás vendo, agora? Não achas também que, se queremos praticar o que está na Palavra de Deus, temos que guardar o sábado?

Roberto toma a Bíblia das mãos de Maria e lê outras passagens: “...Até que o céu e a terra passem, nem um jota ou til se omitirá da lei...” (Mateus 5:18); “Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos” (Mateus 19:17); “E, chegando a Nazaré, onde fora criado, [Jesus] entrou num dia de sábado, segundo o Seu costume, na sinagoga...” (Lucas 4:16); “E as mulheres que tinham vindo com Ele da Galiléia... no sábado repousaram conforme o mandamento” (Lucas 23:55-56); “E santificai os Meus sábados e servirão de sinal entre Mim e vós” (Ezequiel 20:20); “Qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto torna-se culpado de todos” (Tiago 2:10); “Se Me amardes, guardareis os Meus mandamentos” (João 14:15).

O casal continuou estudando a Bíblia. Roberto visitou Guilherme mais umas duas ou três vezes, quando finalmente decidiu-se guardar o sábado e a ser um novo proclamador dessa mensagem. Em pouco tempo, as famílias Pollhein e Zabel já estavam unidas aos Fuckner, professando a mesma fé.

No ano de 1898, o grupo de adventistas se reunia na sala da casa dos Fuckner, e as músicas que cantavam aos sábados eram ouvidas por alguns vizinhos. Um deles era Carlos Zabel, com quem Roberto havia estudado a Bíblia em algumas ocasiões. “Que mal há em eu trabalhar no dia de sábado?” – justificava-se ele. “Lembre-se, Carlos” – dizia Roberto, – “Eva também pensou em que mal havia comer um simples fruto. O mal não está no ato em si, mas na desobediência à vontade de Deus. É nas pequenas coisas que o Senhor testa Seus filhos.” Mas Zabel não se rendia aos argumentos do amigo.

Numa manhã de sábado, Carlos estava trabalhando na roça de aipim, num terreno elevado, quando ouviu o grupo adventista entoando hinos do hinário luterano (único à disposição na época) Singet Dem Herrn (“Cantai ao Senhor”). Aquilo o comoveu. Carlos colocou a enxada sobre o ombro, desceu o morro e entrou em casa apressado. Sua esposa Alvina ficou surpresa.

– Já vieste da roça?! O que foi que aconteceu?

– Vai mudar de roupa, Mulher. Nós vamos lá na Escola Sabatina.

Os dois colocaram suas melhores roupas, foram até a casa dos Fuckner e dali para frente passaram a pertencer à Igreja Adventista do Sétimo Dia, que cada vez mais se desenvolvia em Lageado Baixo. Roberto Fuckner desempenhou a função de primeiro ancião do grupo, cargo que passou, posteriormente, a seu filho Oswaldo.

Roberto Fuckner foi um dos pioneiros em Lageado Baixo





Oswaldo e Christina Fuckner tiveram 12 filhos, um dos quais (Luiz Lindolfo), iria tornar-se pastor. Christina dava aulas de alfabetização para as crianças da localidade e gostava de escrever poemas. Um deles, transcrito abaixo, fala do surgimento da Igreja Adventista no Brasil:

Ó, Itajaí, porto glorioso!
Tão belo e maravilhoso,
Pois de todo o Brasil
És o porto mais gentil.

És o porto mais amado,
Mais bendito e sagrado.
De ti nos veio a salvação.
Louvamos-te de coração.

Por ti o Deus dos altos Céus
Mandou-nos mensagens Suas.
Um missionário ali passou
E revistas ali deixou.

Um senhor, um professor
Foi quem as revistas ali achou
Para Brusque as levou
E mais revistas encomendou.

Para uma venda as levou
E por bebidas as trocou
E com as compras embrulhadas,
A Gaspar Alto foram levadas.

Guilherme Belz foi o senhor
Que a revista ali levou
A seus vizinhos convidou
E a Escritura examinou.

E mais revistas encomendaram;
Sempre mais as estudaram.
E para o batismo preparado,
Um pastor foi convidado.

Ó, Brusque, tens um grande preço,
Pois do batismo és o berço.
Em ti foram batizados
Os primeiros candidatos.

A mensagem subiu a Lageado
Ali também foi aceita.
Mais tarde um grupo preparado
Foi em igreja organizado.

Em Gaspar Alto trabalharam;
Até um ginásio edificaram.
E jovens foram educados
Como missionários preparados.

Pastor John Lipke, o professor,
Foi quem aos jovens ensinou.
Estando bem preparados,
À Obra foram enviados.

A todos os Estados foi levado
O Evangelho aqui iniciado.
A verdade assim foi ensinada
E a lei de Deus observada.

Agora muitos crentes
De toda raça e toda a gente,
Clamam: “Jesus Cristo, vem
Nos levar à Jerusalém!”

Lá, naquela Cidade linda,
Tão querida e tão infinda,
Veremos o Senhor Jesus
Que por nós morreu na cruz.

Logo a Terra renovada
Sim, será nossa morada.
E todos os sábados nos reuniremos,
Nosso Redentor louvaremos.

Vinde, jovens companheiros,
Ao encontro de Jesus.
Logo sempre viveremos
Com Jesus, na Sua luz.*

(*) Original em alemão: Christina Fuckner (1894–1976), batizada em 1910. Tradução: Helga Nogueira.