terça-feira, agosto 07, 2007

Capítulo 5 - Como folhas de outono

Carlos Dreefke e os outros colonos que assistiram à abertura do pacote na venda de Davi Hort levaram suas revistas para casa.

Helmut – um dos colonos – e a esposa Herta, ambos fiéis luteranos, resolveram conferir o conteúdo daquela publicação. Em 1884 não havia muito o que se ler naquela região, ainda mais na língua alemã.

– Helmut, escute isto: “A segunda vinda de Cristo é a bendita esperança da Igreja, o grande ponto culminante do Evangelho. A vinda do Salvador será literal, pessoal, visível e universal. Quando Ele voltar, os justos falecidos serão ressuscitados e, juntamente com os justos que estiverem vivos, serão glorificados e levados para o Céu. Foi o próprio Jesus quem prometeu: ‘Não se turbe o vosso coração, credes em Deus, credes também em Mim. Na casa de Meu Pai há muitas moradas... vou preparar-vos um lugar... virei outra vez’ (João 14:1-3). E a Bíblia traz vários sinais que apontam para a proximidade desse grande dia. A maior parte desses sinais já se cumpriu ou está se cumprindo, o que significa que Jesus logo voltará. E o que você está fazendo? Ser neutro é impossível. Resta a alternativa: estar preparado para a volta de Jesus ou não. Prepare-se, então, pois agora você já está sabendo que muito em breve nosso amado Salvador e Amigo Jesus virá outra vez.”

– Herta... Como pode uma coisa dessas? – admira-se Helmut. – Como nunca ouvimos falar disso?

– Helmut, tenho a impressão de que estas revistas têm preciosas verdades a nos revelar.

Naquela noite, Helmut e Herta foram dormir pensativos. A intenção do casal era conseguir mais publicações adventistas, pois seu interesse havia sido despertado.

Davi Hort não deu muita atenção à revista que lhe coube; entretanto, sua esposa Anna Dorothea não se esqueceu da leitura. As chuvas de alguns anos atrás haviam feito transbordar o Itajaí-Mirim a ponto de destruir muitas plantações e propriedades. Aquilo deixara uma impressão profunda em sua mente, mas ela só aceitaria a mensagem adventista anos mais tarde, juntamente com o filho Adolfo.

Dez famílias acabaram se interessando pelas publicações adventistas e continuaram a pedir mais literatura, usando o nome do Sr. Dreefke que, com medo de que algum dia lhe mandassem a conta de todas as revistas, acabou cancelando os pedidos futuros.

A frustração foi geral. Quem poderia assumir agora a responsabilidade pelas revistas? Um polonês de nome Chikiwidowski chegou a se responsabilizar pelos pedidos, mas seu entusiasmo durou pouco. Foi então que uma terceira pessoa entrou na história: Frederich Dressler.

Dressler era filho de um pastor luterano na Alemanha. Foi expulso de seu país por ser alcoólatra. Aproveitando as correntes migratórias para o Brasil, veio parar em Brusque. Trabalhou como professor, mas toda a sua renda era gasta em bebida. Quando Dressler ouviu falar das tais revistas adventistas que eram enviadas de graça, resolveu fazer um pedido, com a intenção de vendê-las para alimentar o vício que o destruía.

As revistas (como a Hausfreund, “Amigos do Lar”) chegaram e, com elas, alguns livros. Entre eles, um muito especial: Gedanken Über das Buch Daniel (Comentário Sobre o Livro de Daniel). Após a leitura desse livro, Guilherme Belz se tornaria – anos mais tarde – o primeiro no Brasil a reconhecer o sábado como dia de descanso.

Em certas ocasiões, enquanto Dressler caminhava pelas ruas em busca de compradores, os folhetos caíam-lhe das mãos trêmulas. Como não havia muito papel espalhado pelo chão naquela época, as pessoas, curiosas, apanhavam os folhetos e os liam. Sem saber, Dressler prestou grande contribuição à causa adventista que ensaiava seus primeiros passos em terras brasileiras.

A Sociedade Internacional de Tratados dos Estados Unidos enviou centenas de dólares em literatura, que Dressler transformou em cachaça. Na venda de Davi Hort, Dressler trocava as revistas e folhetos diretamente por bebida. O Sr. Davi as usava como papel de embrulho. E foi dessa forma que a mensagem adventista conseguiu se espalhar mais e mais, como folhas de outono, alcançando famílias e corações nos quais a “semente da verdade” começara a germinar.