terça-feira, janeiro 31, 2006

Capítulo 2 - O avanço da mensagem

“E a voz que eu do céu tinha ouvido tornou a falar comigo e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra. E fui ao anjo, dizendo-lhe: ‘Dá-me o livrinho.’ E ele me disse: ‘Toma-o, e come-o, e ele fará amargo o teu ventre, mas na tua boca será doce como o mel.’ E tomei o livrinho da mão do anjo, e comi-o; e na minha boca era doce como o mel; e, havendo-o comido, o meu ventre ficou amargo.” Apocalipse 10:8-10.

Os mileritas viam o “livrinho” como símbolo das profecias de tempo do livro de Daniel que haviam sido inadequadamente compreendidas até seu próprio tempo, mas que, durante o grande despertar do segundo advento, foram proclamadas por um movimento profético intercontinental, representado pelo anjo com um dos pés no mar e outro na terra (Apocalipse 10:2).

Sem dúvida, anunciar a vinda de Jesus era algo “doce como o mel”. Mas, em sua felicidade, eles deixaram de compreender as outras palavras: “Havendo-o comido, o meu ventre ficou amargo.” Na manhã do dia 23 de outubro de 1844, essas palavras não mais pareciam incompreensíveis. “Pude ver que a visão havia falado e não mentira. ... Tínhamos comido o livrinho; havia sido doce em nossa boca e agora tornara-se amargo em nosso ventre, amargando todo o nosso ser”, escreveu Hiran Edson.

“Assim, o grande desapontamento de 22 de outubro de 1844 havia sido predito quase dois mil anos antes! Longe de desacreditar o despertamento adventista, serviu para comprová-lo como um genuíno cumprimento da profecia!”[1] “Com o Seu ‘braço forte’ Deus libertou o povo de Israel do jugo faraônico e o guiou através do deserto à terra prometida; suscitou João Batista para conduzir na Judéia uma obra precursora, anunciando o advento do Messias; iluminou a mente dos reformadores que precipitaram a revolução religiosa do século XVI, e através dos tempos, preparou o cenário para o surgimento do movimento adventista.”[2]

Depois do grande desapontamento, os fiéis sinceros voltaram à Bíblia e, examinando-a, recobraram ânimo e renovaram a esperança ao ler o texto de Habacuque 2:3: “Porque a visão é ainda para o tempo determinado, e até ao fim falará, e não mentirá. Se tardar, espera-O; porque certamente virá, não tardará.” E Apocalipse 10:11 resumia agora a missão dos “remanescentes”: “Importa que profetizes outra vez a muitos povos, e nações, e línguas e reis.”

Milhares que participaram da amarga experiência de 1844, desalentados, voltaram às suas igrejas de origem ou continuaram a marcar outras datas para a vinda de Cristo. Outros, que haviam entrado para o movimento apenas por algum interesse particular, abandonaram a causa por completo. Porém, outro grupo resolveu voltar à Bíblia em busca de respostas. E na Palavra de Deus encontraram o conforto necessário para suportar as críticas e a zombaria de um mundo irreverente e escarnecedor. “Muitas vezes” – escreveu Ellen G. White, uma das fundadoras da Igreja Adventista – “ficamos juntos até tarde da noite, e por vezes durante a noite inteira, orando por luz e estudando a Palavra.”

Por manter suas idéias adventistas, este grupo acabou sendo expulso de das igrejas de origem. Assim, “os pioneiros adventistas não começaram um movimento religioso animados pelo simples propósito de introduzir uma nova dissidência no seio do cristianismo. Não se inspiraram na orientação teológica ou carismática de um homem. Sentiram-se integrantes de um movimento profético suscitado pela mão de Deus para proclamar dentro do contexto do ‘evangelho eterno’ a chegada da ‘hora do juízo’”.[3]

Os anos posteriores demonstraram a importância da liderança de três pessoas em especial no movimento: o casal Tiago e Ellen White, e José Bates. Os White iniciaram a obra de publicações, em Rochester, Nova Iorque. O ex-capitão José Bates redescobriu um mandamento bíblico há muito esquecido pela cristandade: o sábado do sétimo dia como dia de repouso. Posteriormente, em 1863, os adventistas (agora Adventistas do Sétimo Dia) adotaram a Reforma Pró-Saúde, abstendo-se do fumo, álcool, carnes imundas (como a do porco – ver Levítico 11) e de tudo que prejudica o “templo do Espírito Santo” – o corpo humano.


O casal White e o capitão Bates: líderes do movimento nascente


O passo seguinte foi obedecer às palavras de Jesus em Marcos 16:15: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” Conscientes disso, os adventistas passaram a proclamar pessoalmente, em conferências públicas ou através de publicações, suas convicções religiosas: Jesus como único Salvador pessoal; a volta de Cristo como única solução para um mundo em degeneração; a imortalidade condicional do ser humano; a aceitação da Bíblia como única regra de fé e prática; a Lei de Deus como única ética de conduta; o sábado como único dia santificado; e a reforma de saúde para uma vida mais digna e melhor comunhão com o Criador. E foi justamente esse contagiante entusiasmo por promover a saúde e, posteriormente, construir hospitais difundindo os princípios de uma medicina preventiva, que despertou a admiração de muitas pessoas e abriu portas para a pregação do evangelho.

“Podemos esperar que uma igreja que aguarda o fim do mundo a qualquer momento concentre a atenção exclusivamente em assuntos religiosos. É o que acontece com [certas denominações], que não possuem hospitais, asilos, orfanatos e clínicas. Seu único interesse parece ser advertir a humanidade da iminente batalha do Armagedom. Não assim os adventistas. Sua crença na Segunda Vinda não arrefeceu seu empenho em favor da educação, do cuidado médico ou do serviço em prol de outros. Nenhuma igreja pode apresentar mais impressionante relatório de serviço médico do que os adventistas do sétimo dia, levando-se em conta o número total de seus adeptos”, escreveu Willian J. Whiler, professor de História da Universidade Católica de Pardue, Estados Unidos.[4]

Com a lembrança do grande desapontamento ficando para trás, as pessoas tornavam-se cada vez mais receptivas à mensagem adventista. Em meados da década de 1850, tendas evangelísticas foram erguidas num Estado após outro. Centenas, e mesmo milhares, aglomeravam-se para ouvir Loughborough, White, Andrews, Cornell, Waggoner, Sanborn, Taylor, Hull e outros pregarem a Palavra. Mas, mesmo que pregassem às multidões desde o Maine até Minnesota, dificilmente cumpririam a ordem de Cristo de levar o evangelho ao mundo inteiro.

Assim, em 1855, José Bates animou os irmãos na fé a remeter literatura a algumas estações missionárias estrangeiras. João Fischer, ex-ministro batista, chegou a traduzir um folheto para a língua holandesa. Mas só em 1874 um missionário adventista foi enviado para terras além-mar.

John Nevins Andrews foi o escolhido. Profundo conhecedor de grego e hebraico, Andrews era capaz de ler a Bíblia em sete línguas diferentes, além de saber de memória todo o Novo Testamento. Tinha apenas 15 anos quando passou pela amarga experiência do desapontamento. Sem se deixar vencer pelo desânimo, entretanto, continuou a estudar a Bíblia, até que um folheto de Nova Iorque, escrito por Hiran Edson, explicando o erro cometido quanto ao evento que teve lugar em 22 de outubro de 1844, trouxe de volta o ânimo à família do jovem Andrews.

Quando John estava com 17 anos, teve de tomar uma decisão que definiria por completo sua vida. Seu tio Carlos, homem rico que havia prosperado na carreira política e era membro do Congresso Nacional, fez-lhe uma visita e uma proposta. Ele e sua esposa Hanna não tinham filhos e se haviam afeiçoado muito ao sobrinho, um rapaz inteligente e brilhante.

– Que prazer ver você novamente! – diz o tio Carlos. – Você está agora com 17 anos, não é verdade? Quais são os seus planos para o futuro?

– Desejo ser um pastor e pregar o evangelho – responde Andrews. O tio Carlos faz uma expressão de desagrado.

– John, é certo o que tenho escutado sobre você, que está guardando o sábado, como os judeus? Você quer tornar-se um pastor para pregar essa doutrina?!

– Tio Carlos, uma vez que estou convencido de que o sétimo dia da semana é o verdadeiro dia de repouso, estou determinado a pregá-lo em todas as partes aonde eu puder ir.

– Veja, John, eu tenho algo muito mais importante para sugerir-lhe. Você é um jovem inteligente, deve estudar Direito e entrar na carreira política. Este é um brilhante futuro. Pode escolher a universidade que desejar e pagarei todas as suas despesas. Ademais, estou ficando velho e, quando você terminar seus estudos universitários, estarei me aposentando e você poderá substituir-me no cargo que ocupo.

Houve um momento de silêncio. A oferta era tentadora e John apreciava muito os estudos. Pediu um momento para pensar.

– Está bem, John. Tão logo você tenha decidido, escolha a universidade – Harward, Dartmouth ou Yale – e tratarei de conseguir sua admissão. Pagarei os custos e também lhe comprarei roupas e os livros que precisar.

O tio se retirou deixando Andrews pensativo. Mas a decisão do jovem já havia sido tomada. Serviria a Deus aonde quer que Ele o mandasse, e teria todo o apoio dos pais.

Em 1874, durante a assembléia da Associação Geral dos adventistas, em Battle Creek, Michigan, a decisão de enviar o Pastor Andrews como missionário à Europa foi aprovada pelos delegados. Andrews não ficou muito animado; com a morte de sua esposa Angelina, em 1872, desempenhava o papel de pai e mãe de seus dois filhos Carlos e Maria. Hesitava deixar seu recanto tranqüilo próximo à escola, onde os filhos iam bem nos estudos. “Mas logo sentiu uma estranha transformação em suas emoções. Seu rosto brilhava quando ele se pronunciou aceitando ir a qualquer lugar aonde o Senhor o enviasse.”[5]

No dia 15 de setembro de 1874, John Andrews e seus filhos, juntamente com Ademar Vuilleumier, embarcaram no navio Atlas, rumo à Inglaterra. Ademar seria o tradutor e professor de francês dos Andrews.

Pouco tempo depois de estabelecidos no novo Continente, os Andrews já publicavam Les Signes des Temps (Sinais dos Tempos). Quando tinha o material pronto, entregava-o a Maria para ser corrigido. Com 14 anos, Maria dominava o francês e ajudava o pai em seu trabalho editorial. Andrews precisou ainda estudar, além do francês, o alemão e o italiano, para desempenhar seu trabalho.

No início de 1878, Andrews olhava com esperança o futuro. Havia agora adventistas na Inglaterra, Escócia, Irlanda, Egito, Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, Alemanha, Rússia, França e Itália. “A verdade continua avançando. O Senhor voltará em breve. Nossos dias de luto logo terminarão. Continuamos trabalhando e labutando na esperança da vida eterna”, escreveu.

Realmente, a mensagem avançava. Mais e mais missionários foram enviados. Milhares de folhetos e livros foram espalhados como “folhas de outono”. Turquia, China, África, as ilhas do Pacífico, Índia, Austrália, América do Sul... Em cada “nação, tribo, língua e povo” a mensagem adventista lançava suas raízes.

Até que em 1884 o adventismo chegou ao Brasil. De forma não menos providencial.


Referências:

1. Maxwell, C. M. História do Adventismo, Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1985, pág. 54. Leia-se também o livro 1844, Uma Explicação Simples das Principais Profecias de Daniel, de Clifford Goldstein (Casa), a fim de se ter maiores detalhes sobre o que ocorreu em 22 de outubro de 1844.
2. Oliveira, Enoch de. A Mão de Deus ao Leme, Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1985, pág. 29.
3. Ibidem, pág. 35.
4. De um artigo publicado na revista US Catholic, reproduzido em O Ministério, Janeiro/Fevereiro de 1967, pág. 14.
5. Oliveira, Lygia de. Na Trilha dos Pioneiros, Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990, pág. 152.