segunda-feira, janeiro 23, 2006

Capítulo 1 – O Grande Desapontamento

Vinte e dois de outubro de 1844. À medida que os ponteiros do relógio se aproximam das 24 horas, corações ansiosos aceleram. “Deve ser à meia-noite... só pode ser!” Durante 14 anos Guilherme Miller pregara sua mensagem. Aproximadamente 50 mil pessoas em todos os Estados Unidos (que na época tinha uma população de 17 milhões) aceitaram-na.[*] O dia tão esperado chegara. Não havia dúvidas. As últimas horas haviam sido gastas em fervorosa oração e reestudo da Bíblia, para confirmação das datas anunciadas na profecia. O dia era este, sem dúvida. O dia tão esperado; o dia da segunda vinda de Jesus Cristo.

Dentre as pessoas que se uniram ao movimento Milerita, estava o pastor congregacionalista Carlos Fitch. Fitch, de trinta anos, também concordara com a mensagem de que Jesus voltaria no dia 22 de outubro, depois de ter estudado minuciosamente as profecias de Daniel e Apocalipse. Tornou-se, então, importante anunciador do advento e o primeiro ministro milerita.

Poucos dias antes de 22 de outubro de 1844, Fitch batizou três grupos sucessivos de conversos em um rio. A cerimônia, ao ar livre, num dia frio, fez com que o pregador adoecesse. Faleceu na segunda-feira, 14 de outubro, vítima de tuberculose.

– Mamãe, nós veremos papai novamente? – perguntam os dois filhos do pastor, em meio às lágrimas, após o funeral.

– Sim, queridos – responde corajosamente a Sra. Fitch. – Em poucos dias, quando Jesus voltar, Ele despertará papai e seus irmãos adormecidos também, e então seremos uma família completa e feliz outra vez, para sempre!
Os dias transcorrem cheios de expectativa. Na noite de segunda-feira, 21 de outubro, as crianças tornam a perguntar:

– Mamãe, amanhã vamos nos encontrar com papai?

– Sim, queridos! – diz ela olhando esperançosamente para o céu.

Carlos Fitch


Havia muitas famílias como essa naqueles dias. Gente esperando rever os filhos que tinham morrido de tuberculose, cólera, tosse comprida e outras doenças fatais. Milhares antecipando a alegre reunião quando Jesus viesse novamente.

Mas a manhã do dia 22 passou. A tarde, também.

Na pequena vila de Washington, no Estado de New Hampshire, havia uma igrejinha branca. Pertencia à Sociedade Cristã, cujos membros aceitaram a pregação de Guilherme Miller e outros homens sobre a volta de Cristo.

Em Low Hampton, no Estado de Nova Iorque, Miller, sua família e muitos amigos, reuniram-se numa formação rochosa, nos fundos de casa, para esperar Jesus.
O Sol já se havia escondido. A noite começara.

“Deve ser à meia-noite... Só pode ser!” Faltam apenas minutos para as 24 horas. Segundos, agora. Ao soarem as doze badaladas no relógio da cozinha, todos os olhares se voltam para o céu, aguardando o “sinal do Filho do homem” e... nada! Não é possível! O que aconteceu? Lágrimas começaram a rolar pela face de milhares de pessoas. Vinte e dois de outubro havia terminado. Jesus não viera.

Da varanda de sua casa a Sra. Fitch ainda olha para o céu. A lua ilumina-lhe os olhos cheios d’água. Quase não nota uma pequena mão tocar a sua:

– Mamãe, por que papai não veio?


“O Sol ergueu-se no oriente, ‘como um noivo que sai de seus aposentos’. Mas o Noivo não apareceu.
Permaneceu no meridiano, quente e comunicador de vida, ‘trazendo salvação nas suas asas’. Mas o Sol da Justiça não apareceu.
Escondeu-se no ocidente, flamejante, cruel, ‘terrível como um exército com bandeiras’. Aquele que Se assenta sobre o cavalo branco não retornou como o Líder das hostes celestiais.
As sombras do ocaso estendiam-se serena e friamente por sobre a terra. As horas da noite passavam vagarosamente. Em desconsolados lares de mileritas, os relógios assinalaram doze horas da meia-noite. Vinte e dois de outubro havia terminado. Jesus não viera. Ele não voltara!” – História do Adventismo, pág. 34.



Guilherme Miller foi um dos responsáveis pelo despertamento religioso do século 19


(*) Outras fontes afirmam que cerca de 100 mil pessoas aceitaram a mensagem adventista. A revista Readers’ Digest, de abril de 1913, p. 53 e 54, no artigo intitulado “E o dia do juízo não veio”, afirma que havia um milhão de espectadores do “grande dia”.